3 de abril de 2013

Íntera da conferência de Dean Radin no Eletric Universe disponível no YouTube


Em janeiro de 2013, Dean Radin, pesquisador sênior do Instituto de Ciências Noéticas e, provavelmente, o nome mais conhecido do atual cenário da pesquisa psi, participou como conferencista no Electric Universe Conference, evento anual promovido pela Thunderbolts Association.

Os vídeos da apresentação, entitulada “Men Who Stare at Photons”(Homens que Encaram Fótons)1, foram recentemente disponibilizados pela organização do evento, divididos em duas partes.

Na primeira, Radin descreve o trabalho que realiza nos laboratórios do Instituto e argumenta a favor da existência da telepatia, baseado em evidências de pesquisa coletadas em dezenas de universidades e laboratórios durante quase seis décadas de investigações na área. O pesquisador cita ainda algumas das metanálises realizadas sobre o tema e lembra que alguns dos trabalhos chegaram a ser publicados em periódicos de grande relevância, como a Nature e a Science.

A segunda metade da apresentação foca nas pesquisas sobre interação mente e matéria (psicocinese). Nela, o pesquisador descreve alguns dos experimentos realizados com geradores de números aleatórios, e apresenta detalhes dos recentes experimentos exploratórios que realizou com sistemas físicos de dupla fenda, que aparentemente geraram resultados significativos a favor desse tipo de interação.

Os vídeos da conferência, disponíveis apenas em inglês, podem ser acessados aqui (primeira parte) e aqui (segunda parte).

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1.  O título da apresentação é um trocadilho com o filme "The Men Who Stare at Goats", com George Cloney, que conta a história das tentativas do Exército Americano, em conjunto com outros setores governamentais, de criar uma unidade de "combatentes psíquicos". 

19 de março de 2013

TED - Idéias que merecem... censura?


Se você é daqueles que busca ter contato com idéias inovadoras e pensadores que desafiam o senso comum, é bem provável que em algum momento já tenha se deparado com um dos inúmeros vídeos do acervo do TED.

Esse projeto mundial, sem fins lucrativos, é um verdadeiro fenômeno na internet. Com o objetivo de disseminar idéias que “merecem ser espalhadas”, bem como “mudar atitudes, vidas e ultimamente o mundo” o TED já disponibilizou, de maneira totalmente gratuita, mais de 1.400 conferências sobre as mais diversas áreas do conhecimento.  

Considerando que por lá já passaram personalidades influentes como Bill Gates, Stephen Hawking e Al Gore, e que seus vídeos já registraram mais de um bilhão de acessos mundo afora, é possível afirmar, sem grandes dificuldades, que o projeto vai muito bem, obrigado. E é certo que assim o seria, não fosse um infeliz episódio, ocorrido na semana passada, que vem gerando repercussão notadamente negativa em sua base de usuários: a exclusão de dois vídeos do acervo por -  adivinhe! - “motivos científicos”. 

Tratam-se das conferências promovidas pelo bioquímico inglês Rupert Sheldrake e pelo autor e jornalista britânico Graham Hancock, realizadas em um evento londrino do TEDx1 que teve como tema “Desafiando Paradigmas Existentes”. Pois é, o tema é esse mesmo, e foi justamente por seguí-lo à risca que os conferencistas citados foram não só taxados de pseudo-cientistas, mas tiveram suas falas excluídas do acervo da organização, em uma verdadeira lição de incoerência. 

O episódio teve início quando dois blogueiros americanos denunciaram, com base em alegados "erros factuais", o conteúdo das conferências à moderação do TED e exigiram suas respectivas exclusões. Em resposta, os editores fizeram uma espécie de consulta pública, que ficou no ar por três dias e pode ser lida aqui

A consulta gerou centenas de comentários e um debate relativamente interessante, embora não muito distinto daquele que geralmente se dá entre os proponentes e críticos das pesquisas em parapsicologia2. Embora a maioria dos comentaristas tenham se manifestado a favor da manutenção dos vídeos no canal, e vários dos principais pontos que levaram à exclusão terem sido exaustivamente refutados, inclusive mediante resposta dos próprios conferencistas, o conselho científico manifestou-se pela imediata exclusão do material:
“Depois de um levantamento cuidadoso, que incluiu pesquisas científicas publicados e recomendações de nosso Conselho Científico e nossa comunidade, nós decidimos que as conferências de Graham Hancock e Rupert Sheldrake, proferidas no TEDxWhitechapel, devem ser removidas do canal do TEDx no Youtube”.
Em tese, os vídeos não seriam apagados, mas transferidos para uma parte obscura do site da instituição, aonde poderiam ser “enquadrados para mostrar tanto as idéias quanto os problemas factuais dos argumentos apresentados” (sic). Uma nova discussão teve então início e, em pouco mais de dois dias, cerca de quinhentos comentários inundaram o sítio do TED, a maioria em franco repúdio à atitude da organização.

No mais recente capítulo dessa grande confusão, a organização do TED, em visível modo crisis   menagement,  retratou-se de parte das críticas e apresentou um terceiro comunicado (disponível aqui), no qual sintetiza o ocorrido, dá uma visão levemente mais ponderada dos motivos que os levaram a optar pela transferência dos vídeos e pela moderação de seu conteúdo e, novamente, chama o público ao debate. Eles afirmam:
“Tanto Sheldrake como Hancock são palestrantes envolventes, e algumas das questões levantadas certamente mecerem ser citadas. Por exemplo, a maioria dos cientistas e filósofos da ciência concordarão que é verdade que a ciência não avançou muito na resolução do mistério da consciência. Mas as respostas específicas propostas por Sheldrake e Hancock são tão radicais e distantes do pensamento científico dominante que achamos melhor atribuir a elas um claro aviso e trazer novos questionamentos aos palestrantes. (...) 
Nós consideramos que uma conversa calma e embasada na razão pode ser interessante, nem que seja para nos ajudar a definir quão longe podemos explorar uma idéia até que ela não mais “mereça ser espalhada”. 
De minha parte, considero que discussões como essas são, mais do que sadias, necessárias. Na construção do conhecimento científico, assim como em qualquer outra esfera do conhecimento, há espaço para pensamentos divergentes e questionadores. Vale lembrar que a própria metodologia da ciência pressupõe o constante questionamento se suas bases.

Nesse sentido, creio que Sheldrake está correto quando defende uma ciência coerente com suas próprias fundações. E o fato da equipe de curadoria do TED ter removido sua fala, proferida em um evento que se propunha justamente a questionar os paradigmas dominantes, ilustra muito bem – talvez ainda melhor do que qualquer exemplo de seu livro – seu  argumento central: que parte considerável da ciência, da forma como é praticada hoje, se mostra não só dogmática, mas avessa ao mais fundamental debate.

As conferências "removidas" podem ser acessadas aqui (Sheldrake) e aqui (Hancock).

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1.  TEDx é o nome dado a eventos independentes, organizados por indivíduos ou comunidades, voltados ao público local.  Eventos do TEDx ocorrem no Brasil desde 2009, e já passaram por locais como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e Fortaleza. 
2.    Além, é claro, dos periódicos científicos e congressos especializados, grande parte das discussões atuais entre proponentes e céticos da fenomenologia psi se dá nos fóruns do mind-energy.net, um site criado para despertar o interesse público pelo tema e suas relativas aplicações. 


1 de março de 2013

Entrevista com a Dr. Caroline Watt, pesquisadora sênior da Universidade de Edinburgh


Caroline Watt é uma das mais conhecidas pesquisadoras em parapsicologia da atualidade. Doutora em psicologia e autora de mais de 50 artigos científicos na área, é uma das fundadoras do Koestler Parapsychology Unit, grupo de pesquisa associado à Universidade de Edinburgh que investiga a existência do fenômeno psi. 

Caroline, que já foi presidente da Parapsychology Association,  é também co-autora de uma das obras de referência na área, o livro An Introduction to Parapsychology (Uma Introdução à Parapsicologia), adotado por instituições de ensino em diversos países. 

Recentemente a pesquisadora concedeu breve entrevista ao pesquisador Richard Palmisano, diretor do instituto de parapsicologia canadense The Searcher Group. Nela a autora dá dicas sobre a formação do pesquisador em parapsicologia, fala sobre carreira acadêmica na área e dá detalhes sobre algumas das pesquisas das quais participou recentemente.

Richard gentilmente autorizou a reprodução da entrevista, que segue abaixo:


Richard: Há um número grande de pessoas interessadas no estudo do fenômeno paranormal. Algumas delas estão à procura de uma boa formação na área, que possa fornecer as ferramentas intelectuais próprias para se atuar nessa linha de pesquisa. Qual seria a sua recomendação?

Dr. Watt: Filiar-se à Parapsychological Association (PA) é um bom lugar para começar. A associação tem, em seu um site, uma página sobre as oportunidades de formação em parapsicologia. Quanto à leitura, eu fui co-autora de um livro introdutório, junto com Harvey Irwin, que faz uma revisão da literatura científica da área. É um livro bastante extenso, mas informativo. Se preferir algo mais acessível, há também o meu curso online. 

Richard: Você administra um curso online através do Koestler Parapsychology Unit. A quem esse curso é dirigido? 

Dr. Watt: Meu curso acontece duas vezes ao ano (o próximo será em abril) e está aberto a qualquer um, de qualquer parte do mundo, que tenha acesso à internet e queira saber mais sobre parapsicologia, seja ele crente ou cético no assunto. Se algum leitor se interessar, eles podem saber mais sobre o conteúdo do curso na página do meu instituto. 

Richard: Sua carreira em parapsicologia é uma inspiração para muitas pessoas. Que conselho você daria para aqueles que consideram fazer carreira na área? 

Dr. Watt: Em primeiro lugar, faça uma boa graduação em uma disciplina relevante. Psicologia é provavelmente a escolha da maioria dos pesquisadores da área, mas isso vai depender dos seus interesses pessoais. Outras disciplinas interessantes são física, filosofia e antropologia.  Você deve garantir a obtenção de um alto nível de conhecimento metodológico (mestrado), que seja apropriado à área pela qual tem interesse.. Familiarize-se com a literatura relevante da área, e tente se aproximar de um orientador de pesquisa que publique na área, para verificar se ele tem interesse em supervisionar um doutorado sobre este tema (é claro que, em primeiro lugar, você precisa ser bom o suficiente para poder se inscrever em um doutorado). Tecnicamente, não há doutorados em “Parapsicologia” (ao menos não em uma universidade verdadeiramente respeitável). Na verdade, a grande maioria dos doutorados se dão em áreas convencionais, como psicologia, feitos com uma tese da área de parapsicologia e um orientador com experiência na área. 

Richard: Você pode nos contar um pouco sobre o trabalho que realizou sobre experiências de quase morte, e sobre a conclusão de que todos os aspectos dessas experiências tem base em respostas neurológicas?

Dr. Watt: Eu fui co-autora de um artigo científico publicado recentemente no periódico Trends in Cognitive Sciences. Se você ler o artigo, notará que sugerimos que há mecanismos fisiológicos e psicológicos conhecidos que podem produzir experiencias que são similares – se não idênticas – aos aspectos da experiência de quase-morte. O artigo sugere que podemos obter um melhor entendimento desse tipo de experiência se focarmos nesses mecanismos. Isso não é algo exatamente controverso de se dizer, mas alguns pesquisadores de EQM vão discordar acintosamente, por considerarem que a EQM seja capaz de nos dizer algo a respeito da sobrevivência da alma ou da personalidade após a morte física. No entanto, pesquisas têm mostrado que aproximadamente metade daqueles que reportam uma EQM não estavam fisicamente correndo risco de vida no momento da experiência. Isso indica que há um forte componente psicológico associado à experiência. Em muitos casos, é a percepção de que se está sob risco de vida que aparentemente desencadeia a experiência. É claro que isso não a torna menos profunda nem significativa para a pessoa que passou por ela. Tipicamente, EQMs são experiencias transformadoras, e continuarão sendo transformadoras seja quais forem as explicações por trás delas. 

Richard: Por que você acha que o trabalho em parapsicologia é amplamente aceito no Reino Unido e, no entanto, tão ridicularizado nos Estados Unidos e Canadá? 

Dr. Watt: Você acha que esse trabalho é realmente ridicularizado na América do Norte? O que tenho observado é que no Reino Unido e no continente europeu, pesquisadores da área tendem a se situar no ambiente acadêmico – por exemplo, em departamentos de psicologia das respectivas universidades. Dessa maneira, eles podem mostrar aos seus colegas, em primeira mão, que são pesquisadores responsáveis e cuidadosos. Isso tende a abrir mentes e portas. É como a questão do preconceito racial, que tende a desaparecer à medida em que pessoas de diferentes raças passam a se conhecer como indivíduos. Nos Estados Unidos, há uma acentuada tendência dos institutos de pesquisa serem independentes, o que acaba incentivando essa mentalidade “nós e eles” que, em minha opinião, alimenta desconfiança e desentendimento mútuo. 

Richard: Que papel você acha que o ceticismo tem na pesquisa paranormal?

Dr. Watt. Depende do que você entende por ceticismo. Se está se referindo à organizações, como aquela liderada por Paul Kurtz (agora falecido) e James Radi, eu creio que, nas últimas duas décadas, eles voltaram a atenção para bem longe da parapsicologia acadêmica. Eu vejo isso como uma admissão tácita de que nós estamos fazendo uma boa ciência. Atualmente há alvos mais fáceis para grupos desse tipo, como os negadores do aquecimento global, homeopatas e criacionistas. 

Agora, se você considera o sentido dicionaresco da palavra ceticismo (“questionador”) então acredito que ele seja absolutamente crucial à parapsicologia. Se alguém faz uma afirmação, a resposta cética apropriada é perguntar “como você sabe disso?”. Parapsicólogos são geralmente seus próprios críticos, e questionamentos desse tipo levam à melhorias nos procedimentos de pesquisa. 

Richard: Você pode nos falar um pouco sobre seu trabalho em sonhos pré-cognitivos? 

Dr. Watt: Eu tive a sorte de obter financiamento do Parrot-Warrick Fud para investigar os aspectos psicológicos e parapsicológicos das experiências de sonhos pré-cognitivos. Parte deste trabalho debruçou-se sobre como a rememoração seletiva, a propensão a ver correspondências e a consciência implícita podem levar a um aumento na freqüência de experiências desse tipo. Eu também tenho testado a idéia de que os sonhos genuinamente são capazes de predizer eventos futuros. Até o momento não obtive nenhum suporte à essa hipótese, mas ainda estou trabalhando com isso. Mesmo se houver explicações psicológicas para algumas das experiências de sonhos pré-cognitivos, isso não afasta, logicamente, a possibilidade de que fatores paranormais possam operar em outros casos. 

Richard: Você pode falar a respeito do fascinante trabalho que fez a respeito das crenças e experiências paranormais?

Dr. Watt:  Um estudo em particular se baseou em pesquisa prévia que sugeria que, em alguns indivíduos, a crença paranormal poderia se desenvolver como decorrência da necessidade de se sentir em controle do ambiente Eu pedi às pessoas que tentassem quantificar o controle que sentiam ter quando pequenos (por exemplo, mudar de residência frequentemente, viver em um casa grande e caótica, ter pais divorciados, tudo isso pode levar  à sensação de falta de controle em crianças). Eu descobri que aqueles que reportavam menos controle na infância também apresentavam níveis maiores de crenças paranormais. Isso não prova que os dois fenômenos estão causalmente contectados, mas suporta a hipótese de que estejam ligados de algum modo. Há também evidência de que crenças supersticiosas tendem a aparecem mais fortemente em regiões que apresentam maior risco de vida, como por exemplo em uma área sob o risco de ataques de mísseis. Novamente, crenças como essas tendem a nos dar um senso reconfortante de controle.

Richard: Você acha que pode vir a publicar um novo livro em parapsicologia no futuro?

Dr. Watt: Engraçado você ter dito isso – eu acabei de receber uma proposta de uma editora, mas ainda não posso dar mais detalhes. 

Richard:  Algum outro pensamento que você queira expressar para nossos leitores?

Dr. Watt: Continuem questionando!

25 de fevereiro de 2013

Universidade britânica investe em psicologia dos "fenômenos anômalos"

Não é de hoje que universidades de renome investigam o fenômeno psíquico. Departamentos voltados à pesquisa psi há muito fazem parte da grade de instituições como Duke e Stanford, e até mesmo a prestigiosa Harvard já custeou pesquisa nessa área. 

Dessa vez é a Universidade de Greenwich1, premiada instituição de ensino britânica, que deixa o conservadorismo de lado para investir, ainda que timidamente, nessa área de pesquisa. 

De acordo com recente quadro de ofertas de empregos, mais um pesquisador sênior será contratado para atuar na área da psicologia das experiências anômalas. Atualmente a disciplina é ministrada pelo Dr. David Luke. 

No Brasil, a psicologia de fenômenos anomalísticos é tema de um departamento específico da Faculdade de Psicologia da USP, sobre o qual já falamos aqui


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1. A Universidade de Greenwich é a maior do reino-unido em número de alunos. Por ela passaram vencedores do prêmio Nobel, ministros de Estado e medalhistas olímpicos.

19 de fevereiro de 2013

Livro de cientistas americanos traz resultados de três décadas de pesquisas sobre a interação mente-e-matéria


No início de 2011, sem muito alarde, foi publicada lá fora uma das obras mais relevantes do estudo moderno do fenômeno psi. Relevante, esclareço, não por trazer um corpo de evidências irrefutável ou definitivo – sabemos bem que o conhecimento científico não se constrói dessa forma. Mas por compilar, de maneira bastante precisa, algumas das mais intrigantes pesquisas acadêmico-científicas já realizadas na área. 

Chamado “Consciousness and the Source of Reality” (Consciência e a Fonte da Realidade), o livro traz à público uma análise abrangente dos estudos desenvolvidos no PEAR1, instituto ligado à Universidade de Princeton que é considerado por muitos como o mais importante em seu campo de atuação, e que serviu de inspiração ao ficcional (e futurista) laboratório de Katherine Solomon, imaginado por Dan Brawn em seu Símbolo Perdido.  

O instituto foi fundado em 1979 pelo cientista aeroespacial Robert Jahn com o objetivo de investigar a consciência humana e sua interação com a realidade física. Ao longo de seus funcionamento, desenvolveu investigações em duas principais vertentes: interações anômalas entre homens e máquinas e a percepção de informações à distância. 

Por que tais estudos são particularmente relevantes? Os motivos, explico, são vários: em primeiro lugar, porque foram realizados em um laboratório gabaritado, que agrega cientistas com experiência acadêmica em diferentes áreas de atuação. Para vocês terem uma idéia, no PEAR trabalharam de físicos teóricos a filósofos, de engenheiros elétricos a psicólogos experimentais. 

Em segundo, pelo valor das informações compiladas. As bases de dados colhidas estão entre as mais extensas e significativas da área, e envolvem desde fenômenos como micro e macro-PK2 à clarividência ou visão remota. No primeiro desses casos, trata-se simplesmente da maior base de dados já obtida até então. 

Também digno de nota é o fato de envolverem protocolos e desenhos de pesquisa modernos e inovadores. Foram os primeiros, por exemplo, a utilizar em pesquisas do tipo aparelhos como geradores de eventos aleatórios3, ou sistemas físicos como o dispositivo ótico de dupla fenda, sobre o qual já comentamos aqui

Em relação às pesquisas em si, vale ressaltar dois detalhes que chamam particularmente a atenção: o rigor dos experimentos,.cujos protocolos são descritos em detalhe e atendem aos mais modernos referenciais experimentais; e a significância dos resultados, que se positivos de maneira geral, chegam a estarrecer em alguns casos mais específicos.  

Um dos pontos fortes da obra é que seus autores não se limitam à descrição/análise dos experimentos e resultados, mas também apresentam propostas teóricas que tentam explicar os resultados/fenômenos observados. Uma das proposições, por exemplo, envolve um modelo psicológico-filosóficos, com base no inconsciente; outras duas, por sua vez, trazem referências a conceitos derivados da física moderna, como o entrelaçamento quântico. 

O livro, como é comum entre as obras do gênero, não tem perspectiva de ser publicado no Brasil. No entanto, quem lê inglês e não tem medo de se aventurar em um texto um tanto mais técnico, pode encomendar a obra na Livraria Cultura ou na Amazon

O PEAR, infelizmente, fechou suas portas em 2007, após funcionar por quase três décadas. Em infomativo oficial, não deixa dúvidas de que os objetivos do projeto foram atingidos e reitera, em alto e bom som, o tom positivo dos resultados encontrados:

"A enorme base de dados produzida pelo PEAR fornece clara evidência que o pensamento e a emoção humana podem produzir influências mensuráveis na realidade física. Os pesquisadores também desenvolveram diversos modelos teóricos na tentativa de acomodar os resultados empíricos, que não podem ser explicados por nenhum modelo científico atualmente reconhecido. 
Nós conquistamos o que originalmente pretendemos há 28 anos atrás, que era determinar se esses efeitos são reais e identificar suas principais correlações. Ainda há muitas questões importantes a serem enfrentadas, quer requererão uma abordagem interdisciplinar coordenada sobre o tema (...)"

Uma abrangente resenha sobre Cousciousness and The Source of Reality, escrita por Max Derakhshani, foi publicada na última edição do Journal of Parapsychology. O texto, por ser dirigido a pesquisadores, é bastante técnico, mas fornece um bom panorama sobre os principais achados do instituto, compilados nesse trabalho. 

A resenha, traduzida para o português pela equipe do blog, pode ser acessada aqui. Os artigos científicos resultantes dos experimentos realizados pelo laboratório estão disponíveis aqui.  

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1. PEAR é a sigla de Princeton Engineering Anomalies Research, ou Peqsuisa de Anomalias de Engenharia de Princeton. Após seu fechamento, em 2007, incorporou parte de suas operações em duas organizações: o ICRL e o Psyleron. 
2. micro-PK é o nome técnico atribuído aos efeitos da interação mente/matéria ocorridos em pequena escala, invisíveis ao olho nú, porém mensuráveis por meio de análises estatísticas. A influência da mente/intenção  em uma dispositivo eletrônico gerador de eventos aleatórios é um exemplo de efeito dessa espécie. 
macro-PK, por outro lado, refere-se aos efeitos macroscópicos, visíveis a olho nu. É o caso, por exemplo, das colheres entortadas e das bússolas movimentadas sem contato físico ou magnético. 
3. Gerador de eventos aleatórios é um dispositivo, que pode ser físico ou computacional, construído para criar uma sequência de números ou símbolos que não segue qualquer tipo de padrão, ou seja, são completamente aleatórios. Seu mecanismo varia consideravelmente e pode envolver desde processos mecânicos como roletas ou lançamento automático de dados, até processos quânticos, baseados em decaimento radioativo. 






14 de fevereiro de 2013

Metanálise recente aponta para a existência do fenômeno psi


Durante o feriado do Carnaval, enquanto parte considerável dos brasileiros corria atrás do trio-elétrico ou ensaiava passos nem-tão-tímidos ao som daquele mais novo hit do axé baiano, o Rhine Research Center publicou o mais recente volume do seu periódico científico, o Journal of Parapsychology.

Em um dos artigos ali apresentados, os pesquisadores Lance Storm (Faculdade de Psicologia da Universidade de Adelaide), Patrizio Tressoldi e Lorenzo di Risio (ambos do departamento de Psicologia Geral da Universidade de Padova) divulgaram os resultados do mais recente estudo que realizaram sobre a questão da percepção extra-sensorial.

Usando a ferramenta da metanálise -  método estatístico que envolve a análise combinada dos dados obtidos em diferentes estudos realizados sobre um mesmo tema,  e que ajuda a verificar, entre outras coisas, o “tamanho” de determinado efeito observado – os cientistas analisaram os dados obtidos em mais de 90 estudos sobre precognição, clarividência e telepatia, realizados em laboratórios independentes e publicados em periódicos científicos entre os anos de1987 e 2010

De modo a homogeneizar a amostra, foram incluídos na investigação apenas experimentos realizados no formato “escolha forçada”1, realizados com seres humanos, que tiveram um mínimo de dois sujeitos de pesquisa e cujo processo de randomização tenha sido realizado sem a participação direta de um experimentador ou participante. 

Os dados levantados apontaram um total de 812.626 tentativas, que resultaram em 221.034 acertos. Em um resultado condizente com investigações anteriores 2, a metanálise indicou a existência de um efeito psi pequeno, mas estatisticamente significativo, de 0,01 (Z = 4.86; p = 5.90 x 10(-7))

Os resultados discutidos no paper sugerem que estudos baseados em escolha-forçada tendem a produzir um efeito “psi” consistente, bastante acima do que seria esperado pelo simples acaso. Indicam, também, que o fenômeno observado aparentemente não constitui um artefato nem se deve a um desenho de pesquisa falho ou descuidado.

símbolos do Baralho Zener, um dos mais famosos
exemplos de experimento do tipo "escolha-forçada"

Também foi relatada uma aparente tendência de incremento no efeito psi ao longo do tempo, ou seja, o tamanho do efeito observado nas pesquisas de PES parece estar aumentando, de maneira linear, ao longo dos anos. Trata-se de um elemento interessante quando consideramos a constante evolução dos desenhos de pesquisa utilizados em parapsicologia ao longo das décadas, que nada devem em rigor ás ciências tidas como convencionais, como a medicina e à biologia. 

É claro que ainda há muito a ser entendido a respeito do fenômeno psi. Seu mecanismo de ação é certamente uma incógnita, e eventuais possibilidades de uso industrial ainda não passam de mera especulação. 

Ainda assim, parece cada vez mais difícil negar, com base em evidências de pesquisa, a existência desse fenômeno fugidio que ora denominamos “psi”. Após cento e trinta anos de investigações, e embora desacreditado pelo “mainstream”, ele insiste em se mostrar como real. Pequeno, é verdade, mas incomodamente real.

Seria o psi a base da próxima revolução científica? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...

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1. Experimentos de escolha-forçada são aquele em que os “alvos” a serem percebidos extra-sensorialmente são previamente conhecidos pelos participantes, e constituem um leque limitado de possibilidades de escolha. O mais conhecido exemplo, difundido inclusive na cultura popular, é a “adivinhação” dos símbolos das cartas do Baralho Zener. 
2.  Metanálises anteriores sobre estudos de percepção extra-sensorial também indicaram a existência de um efeito pequeno, mas consistente. Sobre o tema, veja: 
-  Honorton & Ferrari (1989) – “Future Telling: a meta-analysis of forced-choice precognition experiments, 1935-1987, Journal of Parapsychology, 53, 281-308; 
- Tart (1983) “Information acquisition rates in forced-choice ESP experiments: Precognition dos not work as well as present-time ESP”. Journal of the American Society for Psychical Research, 77, 293-310;
- Steinkemp, Milton e Morris (1998) “A meta-analysis of forced-choice experiments comparing clairvoyance and precognition”. Journal of Parapsychology, 62, 193-218.

8 de fevereiro de 2013

Médicos brasileiros estudam a neurofisiologia da mediunidade


No final do ano passado, os brasileiros Júlio Fernando Peres (Universidade da Pensilvânia), Alexandre Moreira Almeida  (Universidade Federal de Juiz de Fora) e Frederico Leão (Universidade de São Paulo) publicaram os resultados daquela que é considerada a primeira investigação neurocientífica do transe mediúnico já realizada. 

A pesquisa enfoca a chamada psicografia, uma das formas de mediunidade através da qual, alegadamente, uma “entidade espiritual” escreve através das mãos de um indivíduo, popularmente chamado de “médium”. 

No estudo, os cientistas brasileiros tentaram avaliar se o estado dissociativo causado pelo transe mediúnico está associado a alterações específicas de atividade cerebral, diferentes daquelas encontradas durante o processo normal de escrita. 

Para isso examinaram dez médiuns psicógrafos brasileiros, cujas experiência variam de 15 a 47 anos de prática e que produzem de 2 a 18 textos psicografados a cada mês. Todos eles se encontravam em boa saúde mental – foram investigados através de diversos inventários médicos, que avaliam desde sintomas de depressão e ansiedade à traços de personalidade borderline – e foram considerados bem ajustados social e profissionalmente. 

Os médiuns foram divididos em dois grupos: psicógrafos “experientes”, composto por praticantes com maior tempo de exercício na atividade e maior quantidade de textos produzidos; e “menos experientes”, que praticam a escrita psicográfica há um período menor e produzem poucos textos por mês. Durante um período de dez dias, cada um deles foi submetido, em ordem aleatória, a tarefas ora de psicografia (escrita automática, em estado de transe), ora de escrita normal (tarefa-controle). Durante esses períodos, suas atividades cerebrais foram monitoradas por meio de neuroimagem, obtida através de um exame conhecido como tomografia por emissão de pósitrons. 

Os textos redigidos durante o experimento – tanto em condições normais quanto em estado de transe mediúnico – foram posteriormente enviados para análise de uma especialista em língua e literatura, que averigou critérios gramáticos e estilísticos, e atribuiu a cada texto notas de 1 (pobre) a 4 (muito bom).

O primeiro e interessante aspecto observado pelos investigadores foi que os textos redigidos sob influência mediúnica mostraram-se mais complexos e melhor elaborados do que aqueles escritos de maneira consciente, sob condições consideradas normais. 

Ainda mais intrigante, no entanto, foi o resultado das tomografias. Médiuns de ambos os grupos apresentaram, durante o processo de psicografia, atividades cerebrais notadamente menores do que aquelas apresentadas sob condições normais. Vale dizer que esse fato contraria significativamente a expectativa, afinal, se os textos redigidos sob transe mediúnico foram mais complexos do ponto de vista linguístico, era de se esperar a presença de maior atividade cerebral durante esses momentos. 

Outro fato verificado é que os indivíduos do grupo dos “menos experientes” apresentaram maior atividade cerebral nas regiões citadas do que o grupo dos “experts”, particularmente no hemisfério cerebelar esquerdo, hipocampo esquerdo, giro occipital inferior esquerdo, cíngulo anterior esquerdo, giro temporal superior direito e giro pré-central direito. Novamente, contratou-se o efeito contrário ao que seria esperado. 


Os resultados, representados no gráfico acima, demonstram a maior ativação de áreas ligadas a processos cognitivos que se dá no segundo grupo. É. possível, como lembram os pesquisadores, que essa maior atividade se dê como decorência do suposto maior esforço necessário aos indivíduos desse grupo para exercer sua função - é como se indivíduos menos experientes tivesses que “se esforçar mais” para exercer sua atividade. O cérebro dos “experts”, por sua vez, parece fazer um uso mais eficaz das regiões cerebrais, o que é condizente com achados anteriores e pode explicar parte dos sinais observados. 

Não obstante, como os próprios autores pontuam durante a discusão dos resultados, a redução significativa de atividade neuroencefálica, especialmente em áreas próprias ao planejameto de escrita, observada entre os médiuns experientes durante a psicografia, é consistente com a noção de escrita automática (inconsciente), assim como à alegação de que uma outra “fonte”, externa a si próprio, estava planejando o conteúdo a ser escrito. 

Além do mais, os resultados obtidos parecem incompatíveis com a idéia de que os médiuns do primeiro grupo estivessem fingindo, atuando ou utilizando quaisquer elementos de prestidigitação – explicações comumente utilizadas para negar veracidade ao fenômeno. Fosse esse o caso, circuitos neurais ligados à criação e planejamento seriam utilizados e apareceriam nos exames.   

Embora não conclusivo, o estudo dos médicos brasileiros sugere a importância da colaboração entre diferentes linhas de pesquisa para uma compreensão mais profunda dos processos de dissociação. 

Esforços como esse parecem indicar que explicações corriqueiras, usualmente reduzidas à patologia ou à simples enganação, não mais são suficientes para dar conta de uma realidade vasta, multifacetada e complexa como o é a consciência humana.

O artigo original dos pesquisadores brasileiros, publicado no periódico PLOS ONE, pode ser acessado em sua íntegra, em inglês, aqui. A jornalista Denise Paraná, pós-doutoranda em ciências humanas pela Universidade de Cambridge, acompanhou de perto as investigações e escreveu uma matéria para a Revista Época que pode ser acessada aqui